Deslocamento entre Broadcast e Plataforma

Etapa: Inspiração
Estado do projeto: Exploração


O que aconteceu

A análise da RTP Play, realizada a partir de uma posição simultaneamente profissional e investigativa, evidencia uma tensão persistente entre a lógica de programação herdada do broadcast e as potencialidades narrativas do ambiente digital. Apesar da diversidade de conteúdos disponíveis e da flexibilidade de acesso proporcionada pela plataforma, a organização narrativa mantém-se maioritariamente estruturada em unidades fechadas, finalizadas e orientadas por modelos editoriais consolidados.

Esta constatação emerge de uma experiência prolongada no interior do serviço público de media, combinada com a observação crítica do funcionamento da plataforma enquanto objeto de investigação. O contacto direto com processos de produção e decisão editorial torna visível que a transição para o digital não implica, por si só, uma transformação do modelo narrativo.


Questão / problema emergente

Se as condições técnicas da plataforma digital permitem formas narrativas abertas, processuais e relacionais, porque é que o modelo de conteúdo permanece predominantemente fechado?

A persistência deste modelo sugere que o problema não reside apenas na tecnologia, mas em camadas institucionais, editoriais e culturais que condicionam a experimentação narrativa no contexto do serviço público de media.


Decisão provisória

Assumir que o foco da investigação deve deslocar-se da inovação técnica para a análise crítica das estruturas narrativas e editoriais que regulam a produção e circulação de conteúdos na RTP Play.

Esta decisão implica tratar o modelo de conteúdo fechado não como limitação acidental, mas como elemento estruturante a ser problematizado pela investigação.


Consequências para a investigação

Este posicionamento orienta o desenvolvimento do protótipo narrativo enquanto dispositivo crítico, e não como solução funcional ou proposta de melhoria da plataforma. O protótipo deverá tornar visíveis as tensões entre abertura narrativa, mediação institucional e serviço público, operando como ferramenta de reflexão e questionamento.

Implica também que o Diário Digital de Bordo privilegie o registo de fricções, bloqueios e decisões institucionais, em vez de apenas sucessos ou resultados formais.


Relação com a investigação

Esta entrada contribui para a formulação da pergunta de investigação central ao enquadrar a RTP Play como um espaço onde a lógica broadcast continua a estruturar a narrativa digital. A noção de obra aberta surge aqui como possibilidade condicionada por práticas institucionais concretas, e não como ideal abstrato desligado do contexto de produção.

Entrada registada no contexto de um processo em curso. As decisões aqui descritas são provisórias e sujeitas a reformulação.